?h??min.- Ficções
As tardes azuis da sua época lírica, a da infância, eram passadas em sua casa na companhia do pai e dos seus primos que o visitavam todas as tardes, depois das aulas de canto e de piano. Lá, escondiam-se da criada entre os lençóis brancos do estendal que estalavam à passagem do vento. Esse era o cheiro de que não se queriam esquecer nunca - a brancura.
À saída da Papelaria, estava Baudelaire a escrever um verso na parede da Fonte do Suspiro: “Embriaga-te com a brancura / embriaga-te na cama da criada”. O Inspector abrandou o passo e esfregou os olhos, estava cansado e precisava de descansar a mente.
Depois das tardes alegres com os primos, recolhia-se no quarto e percorria as prateleiras da pequena biblioteca com um olhar fugaz, e ficava a criar histórias que cruzavam as personagens dos seus livros preferidos noutros imaginários.
Durante a noite, o seu pai Sr. Francis Haze, ficava a rever ou a traduzir romances policiais, imprimindo vigorosamente no papel branco as letras metálicas da máquina de escrever. O Inspector tinha-se habituado a adormecer com aquele som na cabeça. até ao dia em que o som se tornou imagem. O barulho das varetas no papel podiam ser traduzidas nas palavras que mais desejasse, descodificando pelo ar novas frases. A partir desse momento, o Inspector deixou de conseguir adormecer ao som das letras do seu pai, e começou a escrever poemas, com as palavras que o barulho lhe induzia. Escreveu brilhantes poemas para a idade. Porém, nos meses que se seguiram à escrita dos primeiros poemas, o seu pai deixou de receber livros para traduzir e rever, a Editora Aprumo para a qual trabalhava, tinha aberto falência. A máquina de escrever foi arrumada no sótão, e as palavras deixaram de bailar pela casa. Nesse imenso silêncio, caiu no Inspector um imenso manto de neve que cobriu no seu pensamento todas as palavras possíveis.
Pouco tempo depois, descobriu que o dicionário seria um bom substituto da sua fonte de inspiração. Primeiro começou por abri-lo aleatoriamente escolhendo as três palavras que tivessem a melodia mais bonita. Ao repetir o processo, umas boas dezenas de vezes, constatou que metade das palavras escolhidas eram nomes de peixes. E de facto, os dicionários estão repletos de nomes de peixes. Julgou por isso que seria uma classe digna de registo. Dedicou-lhes a sua primeira ode. Aos peixes.
Uma frase repetiu-se posteriormente em todos os poemas: “os peixes são a paisagem do meu sono” ou com a variação “…do meu sonho”. O Sr. Haze, ao deparar-se casualmente com um dos poemas do filho comprou-lhe um aquário gigante, no seu parecer, à altura da grandiosidade da sua destreza poética. Como todos os poetas têm períodos específicos na sua obra, o Inspector, embora criança, tinha encerrado o seu primeiro período: o aquático. Foi marcado pela entrada do aquário em sua casa, e pelo facto, de os peixes deixarem de ser “a paisagem dos seus sonhos” para se transformarem na paisagem da sala-de-estar.
Em breve, iniciou um novo período “o dos vínculos com o silêncio da noite”, marcado pela morte de um dos seus primos. O Inspector deixou de sair à rua para brincar, ficando fechado em casa a olhar para o aquário. Um dia entornou lentamente detergente na água e os peixes morreram...
Iniciou o seu último período poético, que o acompanharia até ao final da adolescência e até à entrada na Academia. Foi a fase do “deleite” e do "hedonismo" que passaram a fazer parte da sua escrita obsessiva pelo prazer e pela voluptuosidade. Chegou a escrever vários cadernos com poemas que destinava publicar na pequena Editora que, entretanto, o seu pai fundara…
Nisto pensava o Inspector antes de adormecer, ao som dos pingos da torneira mal-fechada. Não tinha sido descuido, era apenas um velho hábito de adormecer ao som de um baque ritmado. Recordou-se onde guardara os seus velhos cadernos de poesia nunca editados. Abriu a última página de um dos cadernos. Havia uma pequena nota que dizia: “Ler Baudelaire”. Parecia que a sua adolescência lhe enviara uma mensagem para o seu presente. Talvez Baudelaire tivesse alguma coisa para lhe dizer!
- Amanhã irei à livraria Ficções comprar a sua obra completa!- disse para si mesmo, o Inspector.










